
Nêga foi o apelido carinhoso que lhe foi dado na infância ainda, nos idos do início do século XX, em Barretos.
Nêga foi a mulher forte que conheci, esbelta, que não caminhava, desfilava como se os caminhos fossem passarelas de desfile de moda.
Naquela época, principalmente em cidades pequenas, o divertimento para as moças de família era ficar dando voltas na praça, em torno do coreto.As moças no lado inferior da calçada, o lado "de dentro", e os moços do lado "de fora", o lado da rua. Em sentidos opostos. As moças iam, os moços vinham, de modo que quando se cruzassem pudessem se olhar nos olhos. Ah! A magia de olhar nos olhos!
Ela, de família tradicional da região, criada para se casar com quem os pais escolhessem. Ele, imigrante italiano, alto, forte, de pentrantes olhos claros.
Ela apaixonada pelo funcionário público Amadeu, um rapaz franzino e de cabelo "pastinha". Ele, apaixonado à primeira vista por ela.
Amadeu era o que os barretenses na ocasião chamavam de "almofadinha". Trabalhava em escritório, mãos macias, "engomadinho". Diferente demais para os familiares dela que traziam nas mãos os calos da lida, das "rédeas" com os empregados e até mesmo entre eles. Logo, o pretendente "almofadinha" não servia para Dona Nêga. Tinha que ser 'homem trabalhador'. E ela chorou.
E ele, alto, forte, mestre de obras, além de encantado pelos olhos de Dona Nêga, encantou a família dela. Todos os dias ao voltar da lida, passava em frente à porteira da propriedade de sua família, e, esperto que era, já havia mandado o recado para o pai dela, através de um tio, que mostoru ao 'seu Joaquim' o candidato a genro. Ele passava com os trabalhadores da obra, carregando enxadas e outros apetrechos no carro de boi, e tinha nas mãos os calos do homem que aprendera desde cedo o ofício das obras. Aprovado com louvor.
Ele feliz. Ela desesperada, planejou uma fuga fracassada. Com o Amadeu. Mas não deu!
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